O fim do dia leva a jornada do trabalho para casa. Mas antes, o mercado!
Enquanto espero, vejo uma dupla de bikepatrulhas. Inicialmente me chama a atenção de ambos estarem de óculos escuro, apesar de já ser noite. Estes estancam as bikes, e postamo-se junto de um homem sentado no banco do largo em frente. O homem é magro, cabelos pálidos e sebosos; blusa e calça de moleton surrados; chinelos Havaiana.
Observo o patrulheiro que se aproxima do mendigo para aborda-lo. Instintivamente cuido o movimento seguinte do mendigo. Este abre os braços na mimica de '...estou limpo!', e levanta-se. Fica em pé, e sai caminhando.
É clara e evidente sua atrofia de membros inferiores. As calças balançam presas pela cintura. Caminha medindo os passos, e arrastando uma perna. O patrulheiro estanca. Parece não ver ameaça ( ou sentir compaixão?), e desiste da abordagem.
O mendigo poderia acusar o patrulheiro de 'bulling'?
Minha tese é sim. Pois o cidadão foi abordado, em atitude insuspeita. Apenas porque era aparentemente pobre e desocupado. Foi molestado. BullinNado.
'Agosto. Os jornais matinais diziam que o tempo era firme e quente, mas, aparentemente, foi por volta do meio-dia, que alguma coisa excepcional começou a acontecer, e funcionários do gabinete, todos com aquela expressão desesperada de crianças vitimas de bulling, começaram a telefonar para o serviço de meteorologia.' - Truman Capote, 1946.
O termo é antigo. Há tempos habita os dicionários.
'Banha! Quatro olhos! Zarrolho! Pavio de vela! Seco! Gago! Aleijadinho!
É muito comum ter conhecido alguém com estes apelidos. Eu tenho um grande amigo que seu apelido (codinome) era Xuxa. Extremamente loiro; beirando albino. Nesta época a Xuxa estava em alta.
Na infância eu tive um vizinho que chamavam de Zoinho. Era um menino franzino e mau. Talvez por zombarem de seu estrabismo.
Zoinho tornou-se um comerciante bem sucedido. Encontro-o seguidamente na padaria durante meu café-da-manhã. Sempre o cumprimento. Mas não digo seu nome simplesmente porquê não sei. O certo é que Zoinho não é seu nome. Mas certo é que Zoinho sobreviveu!
Minha idade cronológica, nesta era, separa-me de muitas gerações.
Se fosse criança insegura, nestes tempos, andaria com o Código Civil nas axilas. Mas na minha geração, crianças tinham que manter a honra, mesmo que muitas vezes à baixo de tapas e socos.
'Vaca! Senvergonha! Vagabunda! Meretriz!'. Palavras fáceis de se encontrar nas telenovelas. E atitudes de traição, ódio, hipocrisia, e raro afeto. Faz tempo que a TV abriu caminho até as mentes e corações. Mas inúmeras outras formas de comunicação se criaram. Hoje li na Folha on-line que um mendigo foi encontrado cremado. Pouco ainda pode nos comover.
'Para o mundo que eu quero descer' - Raul Seixas.
Este mundo, onde alguns tem milhares de amigos, sem um para o café de uma tarde fria em agosto e sem um abraço no aniversário, mas com centenas de @cartões.
É..!
Para o Mundo que eu quero descer!
Ou vou abrir um processo contra todas as 'bullinações' que já sofri!
E que mal ou bem, forjaram-me a pessoa forte que me construí.
Termino este, com a mais impactante frase que já li:
'El tiempo cura, lo que em vano lá razón procura!'.
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