terça-feira, 26 de abril de 2011

Jardim.

Simou é uma pequena cidade incrustada num vale no sul da Ilha de Chipre.
Há muitos séculos atrás, um jovem que lá morava sonhava em ser poeta. Seu nome era Hararib.
Ele passava horas nos bosques observando a natureza, e escrevendo suas poesias.
Um dia enquanto ele lá estava, passou por uma trilha um viajante montado. Curioso Hararib perguntou o que fazia um viajante naquele lugar tão ermo? '- Estou a caminho de Larnaca, de lá pego um barco até o porto de Mersin. Tenho negócios na Turquia.'
'- Mersin fica na Turquia?' - perguntou Hararib.
'- Sim. Eu nasci lá.' - respondeu o homem. '- E você? O que faz aqui?'.
Hararib estufa o peito, entre pomposo e orgulhoso, e responde: '- Sou poeta. Busco na beleza das matas, riachos e aves, inspiração para ser o melhor entre os melhores poetas.
'-Por Alá!!' - profere o turco, fazendo uma curruira voar assustada.
Um silêncio ameaça pairar no ar, quando o turco completa: '- Eu conheço um grande poeta. Saladin Marakesh. O poeta do Paxá de Ankara.'.
'- Por Alá!!' - agora é Hararib quem se espanta. ' Saladin o Grande? Aquele que escreveu mil poemas em um verão?'.
'- Dois mil! Meu jovem.' - corrige-o o turco.
'- Saberia ele escrever um poema em uma só palavra?' - curioso Hararib cria um desafio.
O turco levanta os olhos e leva a mão ao queixo, segurando sua cabeça. Assim fica por alguns segundos, até que baixa os olhos para o poeta e diz: '- Interessante questão que você coloca meu jovem. Um poema em uma só palavra! Venha comigo, e faremos a pergunta para Saladin!
Hararib escora com a mão seu corpo na pedra, e mira o povoado lá embaixo. Tão pequeno que ele poderia até mesmo nominar os moradores. Entende que não tem nada a perder.
'- Partimos?' - sugere o poeta.
O turco oferece lugar na mula, e Hararib monta.
Assim fazem uma jornada que começa no vale de Simou, e se estende entre montanhas, rios, e mares por mais de meio ano.
Quando chegam em Ankara, a neve cobre casas e ruas. As arvores pendem os galhos com o peso. O turco guia Hararib até o palácio. Lá os informam que o Grande Poeta só os verá na manhã seguinte. Acomodam-se num dos corredores aquecidos do palácio. Quase não dormem, mesmo estando tão cansados. Uma expectativa os consome: uma palavra, um poema.
O sol do nascente faz a luz dos cristais de neve brilhar, e os viajantes acordam.
Hararib admirado pela opulência do palácio entende que a jornada já valera à pena.
Eles são conduzidos até uma sala ampla, forrada de tapetes, e aquecida por cinco lareiras. Nas paredes tapetes estampam centenas de poemas. Um homem velho, vestido de bata e turbante branco, com uma barba que tapava seu pescoço, em posição de ioga, esta sentado numa almofada dourada.
Respeitosamente os viajantes sentam perto do Grande Saladin. Os viajantes olham-se, cúmplices da mesma pergunta: ' Um poema de uma palavra?'.
Aqui termina este conto. Para mim ao menos.
Reescrevi o texto acima, da minha memória que leu em um site está estória.
Mas acredito que meus leitores poderão adivinhar o final.
Feche os olhos e imagine.
Basta buscar no título.
Pense.
Se você não consegue, eu lhe ajudo.
Flores multicores. Vários tons de verde. Aroma perfumado nas narinas. Uma brisa morna e carinhosa lhe bate a face. Cantos mágicos dos pássaros lhe embalam.
Pronto!
Este é o poema de uma só palavra!
Tente se sentir assim.
É o que lhe desejo.
Jardim!


















quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sementes.

'Se não houver frutos,
valeu a beleza das flores...
Se não houver flores,
valeu a sombra das folhas...
Se não houver folhas, valeu a intenção
da semente...'
Henfil.

A página 54 da ZH me salva da expectativa de um feriadão. Raros nesta época!
Mas aqui estou. Atualizando este blog.

Amanhã, se Deus, e Kleiton & Kledir, permitir: '...vou pra Porto Alegre. Tchau!'.
Mas antes, escrevo depois de buscar um tema (quando me deu vontade!).

Sementes foi o título.
Semente é símbolo de Páscoa.
Cristo é Semente.

É dele que nasce uma religião há mais de 2.000 anos.
É sua morte que prantearemos na sexta-feira.
Sua falta no sábado.
E o brotar da sua ressurreição no domingo.

Nossa!
Quantos acontecimentos!

Espero que desta Páscoa eu lembre dos momentos marcantes que passei no Moinhos de Vento.
E que estes sejam, se não forem frutos, sementes de futuras histórias.


In God We Trust!
That is all.



domingo, 17 de abril de 2011

Um conto: Castelos de areia.

Ainda é cedo, pouco mais de dez horas, mas a praia já começa a ser tomada por aqueles, que assim como eu, vieram aproveitar a folga da semana. Os guarda-sois formam pequenos ninhos, onde pessoas se agrupam em bando, trios, duplas ou unos. O mar e o céu parecem entender que estamos ali por causa deles,e hoje em especial são muito generosos. O céu é de um azul purpurina, o mar quase um lago de esmeraldas. Uma leve brisa disfarça a pimenta com que o sol temperara a pele dos desprevenidos.
Com minha cadeira e meu guarda-sol, estava preparado para curtir momentos de paz. Me guarnecia com cigarros, um livro de Tchékhov, uma bag térmica com algumas ampolas de agua mineral e um sandwich. Assim relaxo o corpo na cadeira, e por de trás dos óculos escuros descanso minha mente com a paisagem praiana .
Vasculho o horizonte a procura de barcos. Um pequenino ponto desfila na borda do horizonte. Gosto de imaginar que é comandada por um destemido capitão que desafia os Sete Mares. Navego com ele por alguns minutos.
Quando retorno à minha cadeira apanho a ampola e tomo um longo gole. Puxo um cigarro para a boca e acendo escondido da brisa. Disfarço um olhar ao meu redor para ver se algum vizinho se mostra contrariado com este meu péssimo habito. Felizmente todos parecem despreocupados e democráticos comigo.
Em minha frente, mais próximo do mar, uma menina senta na areia e começa a cavar um buraco. Pacientemente ela vai amontoando a areia. As pessoas passam quase esbarrando na sua brincadeira, mas esta tão compenetrada que suas mãos não param um minuto sequer de cavar e assim aumentar seu monte de areia. Adivinho logo seu intento: um castelo de areia. Um menino curioso começa a rondar sua obra. Ela com um sorriso aceita seu pedido para que ele participe da construção. Então os esforços somados dobram o ritmo para a construção daquela obra. Cena típica de praia.
O meu cigarro termina. Enterro a baga na areia para esconder minha sujeira. Ah se meus amigos ecologistas me vissem? É hora de mais uma dose de água, que desce refrescando o calor do quase meio dia. Apanho meu livro da bag e começo uma história de Tchékhov: O Homem no Estojo.
Alguém já escreveu, não lembro quem: O romance vence o leitor por pontos, o conto por nocaute. Quinze minutos de leitura e Tchékhov me deixa com a sensação que foi para mim que escreveu aquele texto. Sinto-me atualmente dentro do meu estojo. O espaço reduzido, mas confortável, de meus parcos afetos.
Com o homem no estojo ainda dentro de minha cabeça, procuro distrair-me com os diferentes biotipos que me rondam, ou que passam. Altos, baixos, gordos, magros; velhos, jovens, adultos em plena vida, e crianças. Mas todos com uma característica em comum: estojos de almas.
Volto a procurar as crianças que construíam um castelo de areia. Surpreendo-me com o tamanho e perfeição da obra quase finalizada. Duas torres altas, com bandeiras no cume, apoiadas na base do castelo onde se via uma porta cuidadosamente feita com palitos de picolé. Agora eles se dedicavam em construir o muro que guardaria seu castelo.
Aquilo me fez pensar em uma analogia com as relações dos casais, onde cada qual com seus caminhos se encontram por acaso e juntos passam a construirem seus castelos.
Pesar nos castelos que já construí me desperta necessidade de mais nicotina. Droga! A ansiedade não combina com a tranqüilidade de um domingo de sol e praia! Coisas guardadas dentro do meu estojo me incomodam.
Um vendedor ambulante tenta me vender algo, eu tento conversar com ele.
Um casal apaixonado produz cenas quase indecorosas. Ninguém liga. Eu cuido.
E assim a tarde vai se revelando enquanto eu observo a paisagem.
Repentinamente uma sombra envolve a paisagem. A brisa transforma-se em vento. Esteiras viram tapetes voadores. Um guarda-sol sai tresloucado assustando alguns.
Busco as crianças que constroem seu castelo. A menina olha para o céu e preocupada acelera o ritmo da construção. O menino apenas observa curioso a rápida mudança do tempo. Parece pensar:'Não dará tempo!'.
Eu sei que a chuva virá. Então como não posso fugir, não tenho pressa. Apenas  vou recolhendo meus objetos para dentro da bag.
A praia vai se esvaziando. O mar agora tem ondas com bigodes de espuma. E o sol está definitivamente preso atrás das nuvens.
Os primeiros pingos de chuva são pesados. Fazem ploc, ploc, ploc no meu guarda sol, agora iminente guarda chuva.
A praia já esta praticamente deserta. Eu preparo-me para a chuva.
Busco as crianças e seu castelo. Só encontro o castelo. Acabado e perfeito. Duas grandes torres com bandeiras no cume, um muro guarnecido por quatro pequenas torres, e um portão de palitos de picolé.
As crianças abandonaram o castelo, pensam que o mar e a chuva vai desmorona-lo. Não ficaram para assistir.
Eu ficarei.Talvez para tentar recuperar algo que perdi por abandonar castelos que julguei condenados. Quem sabe este sobreviva...































terça-feira, 12 de abril de 2011

Jacaré na cabeça!

Um velho habito herdado de meu pai é ouvir os noticiários das rádios. Fatos da cidade, previsão do tempo, comezinhas locais. Quase banalidades. Eventualmente um crime ou acidente quebram a monotonia do radio-jornal. Hoje, enquanto aguardava o fim da tarde, como de costume, sintonizei numa das estações da cidade. Observo o transito e ouço despretensiosamente o radio. Um break nas notícias para uma música gauchesca. Quando o repórter retoma a programação, é para chamar os resultados das loterias patrocinadas pela Lotérica Mão Grande. Enquanto a monótona narrativa vai se desenrolando, cantando os números da loteria federal do 1º ao 5º, o locutor linka os números aos correspondentes bichos. Hoje deu jacaré na cabeça. O maior crime do dia foi a rádio fazer apologia de uma contravenção que financia tráfico de drogas, de armas e contrabando. Na singeleza de um habito se esconde uma das chagas sociais.
Jacaré na cabeça!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Você só é você quando ninguém esta olhando.

Hoje resolvi as coisas do dia anterior. As paredes e o café tiveram funções diferentes no dia de hoje. As esperadas.
A emoção do dia foi fingir-me Ayrton Sena, quando deixei a cadeira de rodas ser levada pela gravidade. Ultrapassei pelotões de transeuntes. Uma sensação quase inédita: ser mais rápido. Coisas de Jabulani.
A novidade do dia foi a ZH. Recebi o primeiro jornal da nova assinatura. Muitas letras que compõem diversas notícias eu não leio. Maioria talvez. Não por menosprezo, mas por pouco tempo. Até então eu lia o jornal do restaurante no intervalo do almoço, ou em visitas on line, rapidamente para que não seja flagrado 'vagabundeando'. Prefiro chamar de Intervalo Produtivo Necessário.IPN.
Minha página inicial é a 46. Foi dela que tirei o titulo da postagem. Ann Landers no rodapé.
A noite morna e tranqüila me fará imergir na primeira ZH desta nova assinatura. Política, geral, mundo, policia e esportes trarão me novas. Boas, más e indiferentes notícias.
This is the live!
A Luciane prefere que eu traduza.
Esta é a vida!



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Camelos no Pólo Norte !

O sol da segunda feira não teve vantagem alguma. As paredes do escritório latejavam de rotinas. Um nada de vontade, e um tudo de enfadonho me vestiu. O café teve gosto de Errorex.
Uma breve escapada da masmorra capitalista para visitar o fisioterapeuta, e aproveitar para alongar o gastrocnémio. Pauta obrigatória desde que fraturei o joelho.
Não penso mais em retomar a condição de 'Homo eréctus', sinto-me um guerreiro cansado. Agora me deleito com a tranqüilidade da minha cadeira de rodas, carinhosamente apelidada de Jabulani. Mas três vezes por semana eu deslizo até o 5º andar do prédio ao lado para que pacientemente Carlos faça o seu trabalho, e eu me adapte a esta nova condição: 'Homo deslizantis'.
O que isto tem a ver com camelos no Pólo Norte?
Acho que a mesma coisa que um escritor que tem como companheira uma HP-12C, e um cadeirante que ainda alonga gastrocnémios.

domingo, 3 de abril de 2011

Tartarugas não sobem escadas!

Começo este espaço com algo que descreve o meu presente instante: "Too Old To Rock' n' Roll: Too Young To Die". - Muito Velho para o Rock 'n' Roll, Muito Jovem Para Morrer.

Esta frase adaptada ao momento da minha vida ficaria assim: "Muito velho para caminhar, mas muito jovem ainda para parar."

Hoje o domingo foi de sol. Até um cochilo em baixo da árvore tirei. O que me fez adormecer, provavelmente tenha sido, além da sombra e da fresca brisa, a sonolência pela farta refeição de domingo: Nhoque de batata ao molho de tomate da Mama; três cálices de um bom cabernet blanc e pêras ao vinho como sobremesa.

Bem, mas o que tem a ver tartarugas e escadas?

Ainda não sei ao certo qual o meu objetivo neste 'blog'.
Mas se eu perseverar, talvez faça até mesmo tartarugas subirem escadas.

That is all.
Today.