terça-feira, 3 de maio de 2011

Aeroporto D' Almas

'Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a agua com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas penduram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.' - Graciliano Ramos, 1948.
Guardei por meses, este texto impresso que ganhei numa oficina de literatura do Sesc. Se não estou enganado foi com Sérgio Napp.  Aquele que escreveu a letra da música Desgarrados.
Acho, este conselho de Graciliano um dos melhores para quem pensa em escrever.
O texto que publico à baixo foi recentemente 'lavado'.
Mas conserva a força do ímpeto momentâneo.
Saindo do quarto eu encontro o hall vazio. Um silêncio respeitoso paira no ar.   Apenas um sofá desbotado observa o abrir e fechar das bocas dos elevadores. Eu observo o terreno, e escolho o destino. Uma porta identificada: ‘Saída de emergência’. Alguns passos até atrás da porta, e estou numa pequena passagem de andar. Uma única janela contempla aquele espaço, esquecido no prédio de quinze andares. Abro a janela e uma brisa noturna, ainda morna pelo calor do dia, me recebe. Ela será cúmplice do meu intento. Um adesivo na porta corta-incêndio alerta-me em vão: “Proibido Fumar – Lei 2603.”. Conferindo a posse do fumo e do fogo, acomodo-me encostado na janela, e providencio baforadas espessas de alcatrão e nicotina.
Sua respiração ofegante, apesar de inundada pela mascara de oxigênio, aliado ao vazio de seus olhos vagos, fizeram-me pular da cadeira ao lado do leito e buscar alento na imediata nicotina contida em meu cigarro. Debruço-me na janela, cúmplice ocasional, e solto o ar dos pulmões, para deixar partir na brisa os fantasmas da sua iminente fatalidade. O brilho das estrelas engole a fumaça expelida.
Lembro-me do tempo de criança, quando gostava de imaginar os desenhos que se formariam se traçássemos linhas unindo as estrelas. Naquele início de noite, na janela voltada para o leste, meus olhos distinguem nitidamente a Constelação de Escorpião. Um desenho fácil naquela noite difícil.
Apoio meu queixo no parapeito e busco entre os incontáveis pontos de luz, um alento para as vezes que desperdiçamos grão de vida, assim como pássaros descuidados na fartura das colheitas, achando que a primavera nunca terminará. Uma profunda inalada faz brilhar a brasa, iluminando meu oportuno abrigo. Reparo no ambiente espartano, quase rude. Assim pode ser a vida. Penso.
Eu me volto para a janela em busca de vida. Olho para baixo e vejo quartos iluminados por lâmpadas fluorescentes no pavilhão ao lado. Deitados nos leitos estão corpos que estagnaram vidas. O tempo não pára já escreveu o poeta. Penso que não estava completamente certo. Para quantos o tempo já parou naqueles leitos com lençóis suados pelo escorrer da vida?
Tenho pressa em contaminar-me de nicotina. Urge a compulsão, tentando aplacar minha apreensão. Minhas baforadas lançam mais fantasmas de fumaça no breu da noite.
Por entre uma janela vejo um solitário corpo, velho e inerte, conectado a bolsas plásticas por canículas que despejam antibióticos, soros, analgésicos, e sabe-se o que mais. Imagino que a morte o ronda. Desvio meu olhar, e em outro vão está estendido numa cama o corpo de uma mulher, ladeada por um homem segurando um bebê. Visão que traz uma promessa de vida. Utilizo duas tragadas pensando nas antíteses daqueles vãos fluorescentes.
Penso em Deus, em quanto a nicotina me contamina. Seriam Deuses os Astronautas? Ou seriam os médicos os deuses? Talvez Deus fosse simplesmente o Grande Controlador de Torre daquele enorme Aeroporto D’Almas. Aquele que decide o momento de decolagem e aterrissagem.
A penúltima tragada desvia meu olhar para o telhado, que me lembra das bocas dos silos de mísseis. Seriam por ali que almas partem ou chegam das estrelas?
Meu horóscopo diz que sou de Marte. Pouco importa de onde vim, e sim para onde vou!
A brasa esquenta meus dedos, e isto avisa que minha dose pretendida de nicotina já fora inalada, e o relógio denuncia quinze minutos longe da alma que eu necessitava manter junto à minha. Nossas vidas haviam feito uma conexão naquele Aeroporto D’Almas.
Levanto meu esqueleto e deixo o abrigo tabagista da ‘Saída de Emergência’, certo de que os reparos em nossas naves dariam tempo necessário para trocarmos rotas necessárias em busca da estrela definitiva. Ela não deve partir.
Enquanto decido meus passos de volta ao quarto, concluí naquele espaço de tempo: ‘Não somos imortais, nem Astronautas são Deuses, muito menos médicos os são. E Deus talvez seja apenas um controlador de vôos, decidindo a hora de partir ou de chegar neste Aeroporto D’Almas.’


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