Ainda é cedo, pouco mais de dez horas, mas a praia já começa a ser tomada por aqueles, que assim como eu, vieram aproveitar a folga da semana. Os guarda-sois formam pequenos ninhos, onde pessoas se agrupam em bando, trios, duplas ou unos. O mar e o céu parecem entender que estamos ali por causa deles,e hoje em especial são muito generosos. O céu é de um azul purpurina, o mar quase um lago de esmeraldas. Uma leve brisa disfarça a pimenta com que o sol temperara a pele dos desprevenidos.
Com minha cadeira e meu guarda-sol, estava preparado para curtir momentos de paz. Me guarnecia com cigarros, um livro de Tchékhov, uma bag térmica com algumas ampolas de agua mineral e um sandwich. Assim relaxo o corpo na cadeira, e por de trás dos óculos escuros descanso minha mente com a paisagem praiana .
Vasculho o horizonte a procura de barcos. Um pequenino ponto desfila na borda do horizonte. Gosto de imaginar que é comandada por um destemido capitão que desafia os Sete Mares. Navego com ele por alguns minutos.
Quando retorno à minha cadeira apanho a ampola e tomo um longo gole. Puxo um cigarro para a boca e acendo escondido da brisa. Disfarço um olhar ao meu redor para ver se algum vizinho se mostra contrariado com este meu péssimo habito. Felizmente todos parecem despreocupados e democráticos comigo.
Em minha frente, mais próximo do mar, uma menina senta na areia e começa a cavar um buraco. Pacientemente ela vai amontoando a areia. As pessoas passam quase esbarrando na sua brincadeira, mas esta tão compenetrada que suas mãos não param um minuto sequer de cavar e assim aumentar seu monte de areia. Adivinho logo seu intento: um castelo de areia. Um menino curioso começa a rondar sua obra. Ela com um sorriso aceita seu pedido para que ele participe da construção. Então os esforços somados dobram o ritmo para a construção daquela obra. Cena típica de praia.
O meu cigarro termina. Enterro a baga na areia para esconder minha sujeira. Ah se meus amigos ecologistas me vissem? É hora de mais uma dose de água, que desce refrescando o calor do quase meio dia. Apanho meu livro da bag e começo uma história de Tchékhov: O Homem no Estojo.
Alguém já escreveu, não lembro quem: O romance vence o leitor por pontos, o conto por nocaute. Quinze minutos de leitura e Tchékhov me deixa com a sensação que foi para mim que escreveu aquele texto. Sinto-me atualmente dentro do meu estojo. O espaço reduzido, mas confortável, de meus parcos afetos.
Com o homem no estojo ainda dentro de minha cabeça, procuro distrair-me com os diferentes biotipos que me rondam, ou que passam. Altos, baixos, gordos, magros; velhos, jovens, adultos em plena vida, e crianças. Mas todos com uma característica em comum: estojos de almas.
Volto a procurar as crianças que construíam um castelo de areia. Surpreendo-me com o tamanho e perfeição da obra quase finalizada. Duas torres altas, com bandeiras no cume, apoiadas na base do castelo onde se via uma porta cuidadosamente feita com palitos de picolé. Agora eles se dedicavam em construir o muro que guardaria seu castelo.
Aquilo me fez pensar em uma analogia com as relações dos casais, onde cada qual com seus caminhos se encontram por acaso e juntos passam a construirem seus castelos.
Pesar nos castelos que já construí me desperta necessidade de mais nicotina. Droga! A ansiedade não combina com a tranqüilidade de um domingo de sol e praia! Coisas guardadas dentro do meu estojo me incomodam.
Um vendedor ambulante tenta me vender algo, eu tento conversar com ele.
Um casal apaixonado produz cenas quase indecorosas. Ninguém liga. Eu cuido.
E assim a tarde vai se revelando enquanto eu observo a paisagem.
Repentinamente uma sombra envolve a paisagem. A brisa transforma-se em vento. Esteiras viram tapetes voadores. Um guarda-sol sai tresloucado assustando alguns.
Busco as crianças que constroem seu castelo. A menina olha para o céu e preocupada acelera o ritmo da construção. O menino apenas observa curioso a rápida mudança do tempo. Parece pensar:'Não dará tempo!'.
Eu sei que a chuva virá. Então como não posso fugir, não tenho pressa. Apenas vou recolhendo meus objetos para dentro da bag.
A praia vai se esvaziando. O mar agora tem ondas com bigodes de espuma. E o sol está definitivamente preso atrás das nuvens.
Os primeiros pingos de chuva são pesados. Fazem ploc, ploc, ploc no meu guarda sol, agora iminente guarda chuva.
A praia já esta praticamente deserta. Eu preparo-me para a chuva.
Busco as crianças e seu castelo. Só encontro o castelo. Acabado e perfeito. Duas grandes torres com bandeiras no cume, um muro guarnecido por quatro pequenas torres, e um portão de palitos de picolé.
As crianças abandonaram o castelo, pensam que o mar e a chuva vai desmorona-lo. Não ficaram para assistir.
Eu ficarei.Talvez para tentar recuperar algo que perdi por abandonar castelos que julguei condenados. Quem sabe este sobreviva...
Com minha cadeira e meu guarda-sol, estava preparado para curtir momentos de paz. Me guarnecia com cigarros, um livro de Tchékhov, uma bag térmica com algumas ampolas de agua mineral e um sandwich. Assim relaxo o corpo na cadeira, e por de trás dos óculos escuros descanso minha mente com a paisagem praiana .
Vasculho o horizonte a procura de barcos. Um pequenino ponto desfila na borda do horizonte. Gosto de imaginar que é comandada por um destemido capitão que desafia os Sete Mares. Navego com ele por alguns minutos.
Quando retorno à minha cadeira apanho a ampola e tomo um longo gole. Puxo um cigarro para a boca e acendo escondido da brisa. Disfarço um olhar ao meu redor para ver se algum vizinho se mostra contrariado com este meu péssimo habito. Felizmente todos parecem despreocupados e democráticos comigo.
Em minha frente, mais próximo do mar, uma menina senta na areia e começa a cavar um buraco. Pacientemente ela vai amontoando a areia. As pessoas passam quase esbarrando na sua brincadeira, mas esta tão compenetrada que suas mãos não param um minuto sequer de cavar e assim aumentar seu monte de areia. Adivinho logo seu intento: um castelo de areia. Um menino curioso começa a rondar sua obra. Ela com um sorriso aceita seu pedido para que ele participe da construção. Então os esforços somados dobram o ritmo para a construção daquela obra. Cena típica de praia.
O meu cigarro termina. Enterro a baga na areia para esconder minha sujeira. Ah se meus amigos ecologistas me vissem? É hora de mais uma dose de água, que desce refrescando o calor do quase meio dia. Apanho meu livro da bag e começo uma história de Tchékhov: O Homem no Estojo.
Alguém já escreveu, não lembro quem: O romance vence o leitor por pontos, o conto por nocaute. Quinze minutos de leitura e Tchékhov me deixa com a sensação que foi para mim que escreveu aquele texto. Sinto-me atualmente dentro do meu estojo. O espaço reduzido, mas confortável, de meus parcos afetos.
Com o homem no estojo ainda dentro de minha cabeça, procuro distrair-me com os diferentes biotipos que me rondam, ou que passam. Altos, baixos, gordos, magros; velhos, jovens, adultos em plena vida, e crianças. Mas todos com uma característica em comum: estojos de almas.
Volto a procurar as crianças que construíam um castelo de areia. Surpreendo-me com o tamanho e perfeição da obra quase finalizada. Duas torres altas, com bandeiras no cume, apoiadas na base do castelo onde se via uma porta cuidadosamente feita com palitos de picolé. Agora eles se dedicavam em construir o muro que guardaria seu castelo.
Aquilo me fez pensar em uma analogia com as relações dos casais, onde cada qual com seus caminhos se encontram por acaso e juntos passam a construirem seus castelos.
Pesar nos castelos que já construí me desperta necessidade de mais nicotina. Droga! A ansiedade não combina com a tranqüilidade de um domingo de sol e praia! Coisas guardadas dentro do meu estojo me incomodam.
Um vendedor ambulante tenta me vender algo, eu tento conversar com ele.
Um casal apaixonado produz cenas quase indecorosas. Ninguém liga. Eu cuido.
E assim a tarde vai se revelando enquanto eu observo a paisagem.
Repentinamente uma sombra envolve a paisagem. A brisa transforma-se em vento. Esteiras viram tapetes voadores. Um guarda-sol sai tresloucado assustando alguns.
Busco as crianças que constroem seu castelo. A menina olha para o céu e preocupada acelera o ritmo da construção. O menino apenas observa curioso a rápida mudança do tempo. Parece pensar:'Não dará tempo!'.
Eu sei que a chuva virá. Então como não posso fugir, não tenho pressa. Apenas vou recolhendo meus objetos para dentro da bag.
A praia vai se esvaziando. O mar agora tem ondas com bigodes de espuma. E o sol está definitivamente preso atrás das nuvens.
Os primeiros pingos de chuva são pesados. Fazem ploc, ploc, ploc no meu guarda sol, agora iminente guarda chuva.
A praia já esta praticamente deserta. Eu preparo-me para a chuva.
Busco as crianças e seu castelo. Só encontro o castelo. Acabado e perfeito. Duas grandes torres com bandeiras no cume, um muro guarnecido por quatro pequenas torres, e um portão de palitos de picolé.
As crianças abandonaram o castelo, pensam que o mar e a chuva vai desmorona-lo. Não ficaram para assistir.
Eu ficarei.Talvez para tentar recuperar algo que perdi por abandonar castelos que julguei condenados. Quem sabe este sobreviva...
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